Uma árvore que traz lembranças da infância, uma janela que provoca emoções singulares, um livro ou filme que remete à família. O escritor, jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras Carlos Heitor Cony parece não poupar nenhum momento vivido na hora de escrever suas crônicas, e transformá-las em verdadeiras poesias escritas no formato de prosa. A reunião de mais de 50 anos de trabalho como jornalista, entre viagens e coberturas importantes, além de histórias de família – afinal, seu pai também era jornalista e foi o pivô de sua escolha profissional – acabam de ser condensadas no livro “Eu, aos pedaços”, lançado este mês pela editora LeYa.
A obra reúne crônicas escritas ao longo da carreira de Cony que já foram publicadas em diversos veículos. Política e infância são temas recorrentes nas 256 páginas do volume, no qual o autor também compartilha com o leitor os pensamentos que moldaram sua trajetória como jornalista e, principalmente, como ser humano, com 84 anos de existência e muita história para contar.
Como foi a escolha do título do livro, “Eu, aos pedaços”?
Em algumas crônicas que escrevi sou o personagem principal. Escrevo sobre um passeio que fiz, um filme que vi, um livro que li, uma emoção que tive ou uma tristeza maior. Essas crônicas são pedaços de mim mesmo, pedaços que a gente vai deixando por ai. Nas crônicas selecionadas para o livro, falei pessoalmente e usei muito a palavra “eu”. Acho que juntando todos esses pedaços, dá o meu perfil, feito por mim mesmo. Daí o título “Eu aos Pedaços”.
Na orelha do livro, a Lygia Fagundes Telles diz que você é um visionário, você concorda com ela?
Acho que tenho uma maneira peculiar de ver e transformar as coisas. Ao invés de escrever “abri a janela e vi um prédio branco”, escrevo algo além disso. Digo que abri a janela, vi um prédio branco e que isso me lembrou alguma coisa e se essa visão que tive do prédio do lado me despertou alguma emoção, recordação, tristeza, espanto ou pensamento. Minhas visões são reais e despertam em mim emoções a respeito do mundo. Nesse sentido ela tem razão. Sou um visionário realmente.
Você chegou a pensar em ser seminarista, o que te fez recuar da decisão?
Fiquei no seminário dos 10 aos 20 anos. Ao longo desse tempo, perdi minha fé. Gostava muito do seminário e até hoje considero esta fase um dos períodos mais felizes da minha vida. Mas de repente vi que não tinha mais aquele amor à vida mística, às orações, àqueles ritos e cerimônias. Achei que não seria decente ser um padre que não acredita naquilo que fala.
E como foi a escolha do jornalismo? O fato de o seu pai ser jornalista pesou ?
Meu pai era jornalista, do Jornal do Brasil, e precisou levar minha mãe para fazer tratamento nas estações de águas de Minas Gerais. Para isso, ele precisou se ausentar do jornal por um mês e falou que me deixava no lugar dele. Perguntaram: “o teu filho dá pra coisa”? Ele respondeu que sim, que eu sabia escrever e me elogiou para o chefe dele, que me aceitou. É claro que não decepcionei e fiz tudo o que me pediram direitinho. Ai fui ficando e estou até hoje na profissão.
Você dedicou um de seus romances ao seu pai, o “Quase Memória”, publicado em 1995. Foi difícil escrever este livro?
Foi fácil. Quando a coisa é muito difícil, deixo de fazer. Só faço aquilo que me dá prazer. Quando não sinto, paro. Todos os livros que escrevi me deram prazer, uns mais outros menos. Uma coisa que eu acho errada na educação de hoje é obrigar os alunos a lerem determinados livros, e a leitura então se torna um dever de escola. A criança fica com raiva porque tem a obrigação de ler o livro. Devia ser o contrário. A criança deveria ter a curiosidade despertada e, uma vez encontrado o prazer da leitura, ela passa a ler a vida toda.
Você sempre viajou bastante como jornalista. De que forma essas viagens ajudaram o seu desenvolvimento intelectual?
A princípio, eu viajei muito a trabalho, como jornalista. Fui à Inglaterra assistir ao casamento da princesa Diana, em Roma vi a eleição do Papa e em Israel vi a guerra. Hoje viajo mais a prazer. As viagens me ajudaram muito no desenvolvimento intelectual. Uma longa e boa viagem para um lugar interessante como Alemanha, Inglaterra, Itália ou Espanha, por exemplo, valem por um ano de faculdade. Você aprende muito e vê tanta coisa que abre a cabeça. Conhecer outras pessoas, povos e novas maneiras de viver traz muita experiência.
Na crônica “O Preço”, você diz que “foram tantas as esquinas dobradas errado que fica difícil descobrir a esquina fatal”. Você consegue dizer que esquinas você dobrou errado? E quais você acertou?
O que vou dizer é contraditório, mas acho que dobrei a esquina errada quando entrei para o seminário e dobrei outra esquina errada quando saí do seminário. A gente sabe que dobrou uma esquina certa quando chegamos onde queremos. Mas geralmente estamos sempre procurando, tentando e dobrando esquinas erradas pela vida afora.
Que conselho você daria a um jovem jornalista depois te ter dobrado em tantas esquinas erradas?
Sempre ir em frente, porque se você dobra uma esquina dobrada errada hoje pode dobrar uma certa depois e corrigir o erro. Há sempre uma maneira de acertar. O segredo é insistir e não ficar deprimido porque errou ou ter a coragem de voltar atrás.
Entre todas as crônicas publicadas no livro, tem alguma que você goste mais? Por quê?
É difícil responder. É o caso de perguntar ao pai ou a uma mãe que tem vários filhos qual é o filho predileto. Tenho a impressão de que gosto mais da “Areias de Portugal”, porque acho uma crônica bonita e verdadeira. Eu subia na árvore e via o mundo todo. Não estava vendo nada na verdade, só os telhados dos vizinhos, mas estava vendo coisas longe. Quando era criança, fazia muito isso, subia em árvores e ficava vendo coisas. Então essa crônica diz muito de mim mesmo.
O que o público pode esperar do seu livro?
Conhecer o ser humano que eu sou. As pessoas que gostam de mim vão ficar satisfeitas. As que não gostam não vão ler. Quando leio um livro bom, ele se torna um amigo meu, um amigo que conquistei e vai ficar para a vida toda. Em geral, a gente perde os amigos. Meus amigos de infância e até os recentes também ou morreram ou foram para outros caminhos. Muitas vezes passamos anos sem ver as pessoas que a gente gosta. O livro não. O livro a gente trás e fica conosco. É um amigo presente que a gente manuseia no momento que quer.

Serviço:
Título: Eu, aos pedaços
Autor: Carlos Heitor Cony
Editora: LeYa
*Entrevista publicada no Segundo Caderno do Jornal o Fluminense em 27/06/2010.